Na sequência da série de reportagens sobre as histórias de vida de nossos colaboradores, vamos conhecer Rafael Tiago Christiano. O amor por Piracicaba e a vontade de voltar a morar na cidade quase custou a sua vida.

chuveiro e lava olhos

Chuveiro de emergência salvou sua vida

Nascido em Piracicaba, logo aos três anos de idade sua família se mudou para Dourado-SP , porém todos os anos passava as férias na casa dos avós em sua cidade natal. “Sempre tive um carinho muito grande por Piracicaba e tinha certeza que voltaria para cá”, conta.

Ao completar 18 anos, não hesitou em deixar a casa dos pais e tentar uma nova vida onde tanto sonhou. Para conseguir se manter, precisava de emprego e conseguiu trabalhar em uma empresa no setor de almoxarifado químico. “Mexíamos com ácido sulfúrico, amônia, soda cáustica, etc. Não era um trabalho fácil”.

Rafael explica que sua função era basicamente descarregar todos esses produtos químicos e manter o estoque sempre cheio. Até que sua vida mudaria no dia 31 de julho de 2014. Um grave acidente de trabalho o deixaria com queimaduras de 2º e 3º graus. Um novo desafio estava a sua frente. Sobreviver aos ferimentos.

Tudo começou quando Rafael foi checar uma válvula e ver a quantidade que havia no tanque, no momento de abrir, houve uma forte pressão estourando a tubulação de ácido sulfúrico. Ele estava sozinho e ainda não sabia a gravidade da situação. “Foram segundos que pareciam uma eternidade. Tudo ficou em câmera lenta. Foi um jato, um “leque” do produto no lado direito do meu corpo, que me atingiu de cima em baixo, quando olhei estava sem roupa”, relembra.

Ele tinha duas opções; desistir e morrer ali, ou tentar atravessar aquela piscina de ácido para chegar ao chuveiro de emergência e tentar avisar do acidente. “Comecei a caminhar, a sola do sapato derretia, tive que usar as mãos que estavam com luvas para chegar ao chuveiro”.

Ele conseguiu avisar a portaria e durante 40 minutos ficou debaixo do chuveiro esperando o resgate chegar. “Ali pensei que morreria, via minha pele desfiando, meus sentidos se perdendo. Pensei na minha mãe, meu pai e se tinha feito a escolha certa de sair de casa. Não queria, não podia morrer daquele jeito”.

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Rafael com seu pai e sua mãe. Amor que deu força para lutar pela vida

Ele suportou, aos gritos de dor e palavras de incentivo dos funcionários da empresa, ele se manteve acordado e viu a ambulância entrar na empresa. “Quando vi, sai correndo na direção dela. Deitei na maca e me cobriram com uma manta térmica, tiveram que me amarrar, pois a dor era insuportável e não conseguia ficar parado”.

Chegando ao hospital, Rafael já estava irreconhecível. Ele sabia da gravidade, sabia que sua vida estava por um fio. “O pior foi ouvir o médico dizendo às enfermeiras que eu não passaria daquela noite. Ele também disse isso ao meu pai. Pensaram que eu estava desmaiado, mas ouvia tudo”.

Contradizendo a opinião médica, ele sobreviveu e logo de madrugada foi transferido para São Paulo, o destino era a Cruz Vermelha (Hospital defeitos da face). Ali começava a luta pela vida. “Fizeram uma limpeza geral e raspagem da pele para analisar a gravidade. O médico disse que seria difícil, mas teria que lutar pela vida. Foi o que eu fiz”.

Com as limpezas e raspagens, Rafael ficou sem pele, somente músculos. Totalmente enfaixado e ainda exalando o cheiro do ácido. “Aquele sofrimento não tinha fim. Pensei em tirar minha vida e comecei a guardar alguns remédios para esse fim”.

A força para continuar viria apenas de um olhar, um gesto que fez toda a diferença. “Pedi para enfermeira me levar na janela do quarto, para ver além das paredes brancas, foi quando olhei um jardim bonito e um banco. Naquele banco estava minha mãe e minha irmã. Por incrível que pareça, elas olharam para minha janela, eu acenei e elas fizeram um coração. Pronto, era a força que eu precisava”.

Na Cruz Vermelha, foram seis meses de tratamento intensivo. “Meu pai abandonou o emprego e minha mãe veio morar em Piracicaba comigo. Refleti muito e ainda no hospital decidi que iria estudar. Minha alta estava marcada para fevereiro de 2008, mas a prova na ETEC de Piracicaba era em dezembro e eu queria fazer”.

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Rafael e sua esposa no dia do casamento

De tanto insistir com a junta médica, Rafael teve autorização para vir a Piracicaba fazer a prova. “Estava todo enfaixado, parecia uma múmia, mas foquei no objetivo, não olhava para os lados. Vim, fiz a prova e passei em terceiro lugar no curso de técnico em segurança do trabalho”.

Rafael ficou durante cinco anos indo e voltando para São Paulo para tratamento, voltou a trabalhar na mesma empresa em que aconteceu o acidente (porém em outro setor) e continuou estudando. “Hoje sou técnico em segurança, técnico em mecânica e estou estudando psicologia”.

Começou a prestar concurso público e passou para trabalhar com agente sócio educativo na Fundação Casa, em Campinas. Ficou esperando uma transferência para Piracicaba, mas ela não aconteceu. Pediu a conta e foi ai que a Via Ágil entrou na sua vida. “O Geraldo (Crocomo) me ligou e disse que a empresa estava procurando uma pessoa para área de técnico em segurança. Não pensei duas vezes. Sou muito feliz aqui”.

Seu pai também está na empresa, trabalha como motorista. “Hoje tenho uma vida normal. Estou casado, minha família está ao meu lado e tenho um emprego ótimo”.

Rafael finaliza com uma mensagem. “Faça de cada dia um novo dia. Sempre vá atrás do seu sonho. Nunca despreze ninguém e trabalhe duro, pois os resultados virão. Com força e vontade a gente chega lá”, finalizou.